<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-31978041</id><updated>2012-02-16T03:53:34.481-04:00</updated><title type='text'>Outra Aventura na África</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Marcya</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15383281749144172833</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_7aClEkyHiHU/S2_p6Wu68WI/AAAAAAAABT0/--EGmVK3tds/S220/wicca+copy.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>7</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31978041.post-115742075536328720</id><published>2006-09-04T21:35:00.000-04:00</published><updated>2006-09-04T21:48:28.776-04:00</updated><title type='text'>NOITE ESTRELADA</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Domingo, 10 de agosto de 2003.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/1600/noite_estrelada.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/320/noite_estrelada.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Nunca houve céu mais estrelado. Nem nas telas ofegantes de Vincent, que eu pensava reunirem em si sozinhas todo o turbilhão de sonho, fúria, erro e vida que o azul noturno podia esconder, dependente que é do olhar de quem o contempla. Pois aquela noite africana fazia inveja às pinceladas geniais. Deixei-me levar pelo redemoinho esbranquiçado da Via Láctea devaneando tal e qual o holandês em suas maravilhosas noites de insônia e delírio. Me pergunto como a mão perturbada teria entoado o que só eu vi. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;"Ora (direis) ouvir estrelas!" E há muito mesmo o que escutar. Não existe nada mais instigante que esse silêncio fingido, que me traz o eco trêmulo do big-bang vindo das profundezas de bilhões de anos atrás. Pois a confusão se repetiu naquele dia. Pensei que de novo ia explodir. Todas as estrelas do universo estavam lá; não faltou uma sequer. Dizem que numa noite muito escura, pode-se ver entre mil e mil e quinhentas. O que saber então dessa escuridão de um milhão de estrelas? Cada virada de cabeça flagrava uma cadente. Talvez disfarçados, satélites-espiões, discos voadores e anjos recém-nascidos se misturassem aos corpos celestes para, anônimos e felizes, tomar parte do lusco-fusco. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Desci do carro em pleno nada do deserto, cercada de arbustos e estrada vazia, só para botar os olhos pra cima. Brilhavam tanto as estrelas e berravam mudas por atenção que não houve escolha. Perigo sempre existe. Cobras, hienas, escorpiões enormes. Mas vale bem o risco. Escorpiões também há lá em cima. Abençoada por Ptolomeus, Hevelius e Lacaille*, passei a ligar os pontos para encontrar as figuras de animais e personagens mitológicos. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Escorpius, vista inteirinha, ameaçava com o rabo de chicote. Na cabeça do mostro, Antares, a gigante vermelha, luzia os olhos revirados em transe. Em oposição à rival, o planeta Marte se aproximava, generoso, para saudar com um periélio que só o Homem de Neanderthal pôde ver igual. Confuso, de pernas para o ar, o caçador Órion procurava seu Cão Maior perdido. Sirius apontava a direção. O Cão Menor o encontraria pelo faro. Dadas a peraltices, as Três Marias levadas apertavam com força o cinturão. Mas havia ainda mais e mais. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Centenas, milhares. Todas elas constelações, perfeitas e inalcançáveis, com seus lindos nomes em latim: Andromeda, Antlia, Apus, Aquarius, Aquila, Ara, Aries, Auriga, Boötes, Caelum, Camelopardalis, Cancer, Canes Venatici, Canis Major, Canis Minor, Capricornus, Carina, Cassiopeia, Centaurus, Cepheus, Cetus, Chamaeleon, Circinus, Columba, Coma Berenices, Corona Austrina, Corona Borealis, Corvus, Crater, Crux, Cygnus, Delphinus, Dorado, Draco, Equuleus, Eridanus, Fornax, Gemini, Grus, Hercules, Horologium, Hydra, Hydrus, Indus, Lacerta, Leo, Leo Minor, Lepus, Libra, Lupus, Lynx, Lyra, Mensa, Microscopium, Monoceros, Musca, Normai, Octans, Ophiuchus, Orion, Pavo, Pegasus, Perseus, Phoenix, Pictor, Pisces, Piscis Austrinus, Puppis, Pyxis, Reticulum, Sagitta, Sagittarius, Scorpius, Sculptor, Scutum, Serpens, Sextans, Taurus, Telescopium, Triangulum, Triangulum Australe, Tucana, Ursa Major, Ursa Minor, Vela, Virgo, Volans, Vulpecula. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Tímido, quase uma sombra embaçada cravada no meio do espetacular céu de planetário, Crux, o Cruzeiro do Sul, me chamava de volta pra casa. Olhei para os lados. Era meu e meu só. Ninguém ali seria capaz de entender a mensagem cifrada que ele me indicava. Era um mistério nebuloso, um chamado íntimo e telepático, uma linguagem secreta de amigos muito queridos. Cintilavam as cinco em coro, teimando a sua vontade. Que fazer contra a vontade de uma estrela? A sigma do Oitante**, fraquinha, quase sumida lá no longe, apesar de sua magnitude de rainha, se juntava a elas no apelo. Era a bússola que me fazia lembrar, num sussurro saudoso, o caminho que deveria seguir pela estrada. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Durou tudo um só minuto. Tive que ir embora enfim. Mas minha imaginação, há anos-luz dali, decide seguir o conselho das estrelas. Gira o mapa do mundo e as rodas da vida para encontrar seu rumo. Elas se despedem, satisfeitas, e pedem aos gênios por mim. A Bilac que me ajude a sempre ouvi-las e a Vincent que não me deixe esquecer de amá-las. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;* Ptolomeus, Hevelius e Lacaille, astrônomos de tempos longínquos, foram os primeiros (do mundo ocidental) a mapear e batizar as constelações. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;** A sigma do Oitante é a estrela que representa o Distrito Federal na bandeira brasileira.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31978041-115742075536328720?l=outraaventuranaafrica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/feeds/115742075536328720/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31978041&amp;postID=115742075536328720&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115742075536328720'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115742075536328720'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/2006/09/noite-estrelada.html' title='NOITE ESTRELADA'/><author><name>Marcya</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15383281749144172833</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_7aClEkyHiHU/S2_p6Wu68WI/AAAAAAAABT0/--EGmVK3tds/S220/wicca+copy.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31978041.post-115671042997594630</id><published>2006-08-27T16:20:00.000-04:00</published><updated>2006-08-27T17:10:39.686-04:00</updated><title type='text'>A RECEITA</title><content type='html'>Quarta-feira, 30 de julho de 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/1600/a_receita.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/400/a_receita.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A visita ao museu foi reveladora. O prédio baixo de tijolinhos lembrava, num primeiro olhar, uma escola primária. A impressão ia se desfazendo à medida que escalava os degraus da entrada. Lá dentro, um labirinto escuro e sombrio revelava os primórdios da civilização. As pedras mais antigas do mundo estão aqui, disseram. Nem-sei-quantos bilhões de anos. Bactérias ancestrais repousavam em seu milenar berço de cristal. No papel anunciado de rudimentos do humano moderno, Australopitecus, Homem de Neanderthal e Homo Erectus faziam fila para provar, a quantos tivessem dúvidas, o alívio que era a evolução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais adiante, um primoroso e surpreendente trabalho de taxidermia trazia um grupo de leões de volta à vida. Cheguei a estremecer ao vê-los. Presos para sempre em um cenário preciosista, forrado de rochedos, areia e arbustos, ostentavam o olhar desarmado dos que não se sentem observados. Na segurança do lado de cá da existência e do vidro, não deixava de me incomodar. Pressentia que, a qualquer momento, um deles iria arquear o peito numa respiração profunda. Mudei de sala rápido. Havia mais mortos-vivos. Um grupo de abutres, outro de cervos de todos os tipos. Tartarugas, javalis e raposas, além de pássaros, muitos pássaros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os bonecos que faziam as vezes dos povos primitivos que habitavam a região também não deixavam a desejar. Extremamente naturais, mostravam o modo de vida dos antigos batswanas, muito tempo atrás. O visitante podia apreciar as casas, a mobília, os utensílios domésticos, a roupagem dos nativos, tudo reconstituído com o maior cuidado e perfeição. Mas foi num canto escuro do labirinto, aparentemente abandonado, que encontrei algo peculiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava lá, e parecia real. Seus preciosos badulaques completavam a perfeita caracterização. Lagartos secos, sementes, saquinhos de couro amarrados, ossos, ervas, estranhos instrumentos de madeira, pedras. Era um curandeiro, um mago, um homem cujos poderes sobrenaturais e curadores lhe conferiam o status de médico. Mais por impulso que por curiosidade, me aproximei do texto colocado abaixo do vidro, que supostamente daria as desejadas explicações sobre o personagem. Não sem muita surpresa constatei que havia muito mais que retórica nas informações do museu. Havia uma receita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A placa indicava o procedimento exato para fazer chover. Ingredientes e modo de preparo cuidadosamente detalhados. Então era por isso que andava tão seco por aqui... Chuva não é coisa fácil de se fazer. Analisando com frieza, a receita é realmente trabalhosa. Além de exigir excelente forma física e principalmente muita coragem do manipulador, é repleta de ingredientes estapafúrdios e muito pouco politicamente corretos nos dias de hoje. O certo é que a composição da fórmula denota uma abundância absurda da fauna local em tempos remotos. E assim como faziam os antigos, repasso a você o privilégio único e surpreendente de fazer chover à moda de Botswana:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Para começar o ritual, o Chefe ordena que cortem ramos de Mokgalo para fazer uma cerca em volta de uma pequena área. Dentro dessa cerca, o chão deve ser limpo, coberto com esterco e ritualisticamente purificado. O coração da &lt;a href="http://dcfraser.gallery.netspace.net.au/Moroka/wartyweb"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;Moroka&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/a&gt;está construído e a receita da chuva preparada. Além do Chefe, não é permitido a ninguém entrar no lugar."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A receita de chuva contém carvão feito de morcegos queimados, fígado de chacal, coração de babuíno e de leão, bolas de pêlo tiradas do estômago do gado, pele de cobra, raiz selvagem, arbustos e tubérculos. Esses ingredientes, misturados com gordura humana, são cozinhados no coração da Moroka. Do fogo, grandes nuvens de fumaça negra crescem acima da cerca do Mokgalo em direção ao céu."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A 'panela da chuva' contendo o remédio deve então ser levada para o &lt;strong&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Kgotla"&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;Kgotla&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt; onde o sangue das pessoas que transgrediram as normas tribais, os corpos dos gêmeos e outros seres antinaturais são adicionados à mistura. Finalmente, a panela da chuva é colocada numa caverna escura ou em rachaduras nas pedras onde será deixada para esfriar."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Palavras secretas completavam o preparado, que deveria ser deixado para fazer efeito... É tiro e queda. Tão parecida é com ficção a tal receita, que confesso nem ter feito a menor menção de julgamento. E afinal, que história tenho eu e que direito me daria de ficar criticando e exclamando "oh, que horror!" para os bichos e gentes mortos em sacrifício? Não discuto culturas milenares. Questão de prioridade antiqüíssima, alguém tinha que fazer alguma coisa para resolver a seca. E diante dos recursos, era isso mesmo o que devia ser feito: receita de chuva. Nem que para isso uns tivessem que pagar. Mas tinha tanto leão! Pior são esses cor-de-nada que apareceram por aqui com chapéus engraçados, armas pesadas e meias até o joelho, com o único e nobre intuito de decorar a sala da casa com a cabeça dos &lt;strong&gt;&lt;a href="http://www.places.co.za/html/famousbig5.html"&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;Big Five&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;. Os curandeiros estavam certos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acredite, tão certos que persistem até hoje. Esses praticantes são agora chamados de "traditional healers". Eles exercem um papel importantíssimo para o país porque em localidades muito distantes e inacessíveis, onde o atendimento médico, se não é impossível, é extremamente demorado, serão os primeiros a dar assistência às emergências da população. O conhecimento do poder de cura das ervas realmente se presta a resolver muitos problemas. Mas o povo ainda acredita tanto e tanto na tradição que muitas vezes se recusa a procurar a medicina moderna. E há que ser dito que as doenças já não são mais as de antigamente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse é um outro dos motivos pelos quais o temido HIV se alastra. Há muito não há mais sacrifícios, é claro, mas não raro os rituais de cura envolvem sangue: corte em alguma parte do corpo doente, bebe o sangue, troca o sangue, molha de sangue... As doenças modernas são cruéis. Capazes de se utilizarem da mais antiga prática de expulsão dos males para se espalhar. Os doutores das novas ciências se apressam em tentar explicar o que é difícil de aceitar e entender. O que antes curava, já se vira contra você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em segundos, tomo consciência do transe em que estava. O curandeiro do museu está vivo. Sim, foi ele quem me levou a seus tempos oníricos, de montes de animais selvagens correndo soltos pela savana, mortos de medo do ritual da chuva. Súbito, ouço um suspiro, como ronronar moroso de bicho grande. Mas não há o que temer. Já não chove mais. E os leões redivivos me aceitam, seguros e reverentes, em seu mundo eternamente seco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31978041-115671042997594630?l=outraaventuranaafrica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/feeds/115671042997594630/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31978041&amp;postID=115671042997594630&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115671042997594630'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115671042997594630'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/2006/08/receita.html' title='A RECEITA'/><author><name>Marcya</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15383281749144172833</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_7aClEkyHiHU/S2_p6Wu68WI/AAAAAAAABT0/--EGmVK3tds/S220/wicca+copy.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31978041.post-115601173267758268</id><published>2006-08-19T14:20:00.000-04:00</published><updated>2006-08-19T14:27:06.210-04:00</updated><title type='text'>O BODE</title><content type='html'>Sábado, 12 de julho de 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/1600/o_bode.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/400/o_bode.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fixei o olhar no horizonte. Meu Deus do céu! Não enxergo nada. Bem, não é nada, nada mesmo, coisa nenhuma. É nada por assim dizer. "Where are we going now?" perguntei, meio incrédula. "To the shopping centre", foi a resposta. Como é que pode uma coisa dessas? Olhava para os lados e não via prédio, não encontrava nada que pudesse sinalizar uma grande construção por ali. Na minha frente, só arbustos, casinhas baixas e areia. Parecia que nos encaminhávamos para a beira do abismo. A geografia completamente plana me deixava ainda mais inconformada. Ou o shopping era muito pequeno ou ficava a longínquos quilômetros dali. E, de fato, como na minha distante Brasília, tudo era realmente longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao andar pela cidade de Gaborone é difícil pensar como alguém consegue viver aqui sem um carro. As distâncias são enormes, os espaços vazios não acabam mais. Cidade espalhada, de prédios e casas muito separados e lacunas até onde se puder enxergar. Na verdade são poucos os que não possuem o seu meio de locomoção - nem todos se pode chamar de carro - pois o governo financia a compra em suavíssimas prestações ao longo de gerações. E como quase todo mundo tem um, em Botswana não há um sistema de transporte coletivo realmente eficaz. Os habitantes menos abastados se locomovem de um lado para outro em vans que servem de ônibus e táxi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois foi numa dessas que descobri, surpresa, a prova da tamanha boa vontade do povo batswana. Há de ser tolerante com o vizinho, como essa gente, nunca vi. Saiu até estampada no jornal, com foto e tudo, a verdadeira tradução literal da palavra "lotação". A polícia parou, juntou gente pra ver e a imprensa publicou. Vinte e três pessoas, dezessete homens e mulheres, mais seis crianças, todos dentro de uma van. É inadmissível, mas não seria tão estranho se não fosse... O bode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Animal adulto, bem desenvolvido e bem alimentado, exalando o odor característico do macho da espécie. Gostaria mesmo é de ter visto como estavam acomodados, tendo que manter a boa educação inglesa diante da espremeção monumental. "O senhor poderia virar o seu bode um pouquinho para lá, por favor? Ele está fungando na minha orelha". Ou então "Alguém sabe dizer se esse bode já comeu hoje? Ele parece determinado a desfazer-se de seus detritos fisiológicos agora mesmo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora da revista, ninguém quis assumir o caprino. O motorista se eximiu de culpa diante da autoridade. "Fez sinal e pagou, eu levo mesmo". Um homem que sentara no banco da frente fez pouco caso. "Sabe que nem percebi quando ele entrou?" A mocinha de saias compridas defendeu. "Ele estava até olhando pela janela. Acho que estava quase na parada dele". Uma senhora de gorro vermelho foi a única que teve coragem de admitir - debaixo de olhares de reprovação - que o animal provocava um ligeiro incômodo. "Está um tanto quanto acima do peso, não? Talvez tenha ficado meio apertado".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já ao referido bode, o pomo da tolerância, na sabedoria velhaca de suas barbas, nada incomodava. Pouco importa a companhia. Se não são os caprinos seus consangüíneos, que sejam os solidários passageiros, estejam eles com roupa de festa, passadinhos pra ir ao trabalho ou recém saídos da banheira. Sentimentos de amor pelo outro, pelo bode do outro, de preocupação com os problemas alheios, de inércia ou de desolação com a falta de possibilidades, de escolha ou de iniciativa buscavam uma explicação para o animal, dentro de minha cabeça vaga e limitada de branca d'além-mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu divagava, procurando uma justificativa, o bode, entediado, esperava outra condução passar. Já estava se acostumando. Gente é bicho esquisito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31978041-115601173267758268?l=outraaventuranaafrica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/feeds/115601173267758268/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31978041&amp;postID=115601173267758268&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115601173267758268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115601173267758268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/2006/08/o-bode.html' title='O BODE'/><author><name>Marcya</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15383281749144172833</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_7aClEkyHiHU/S2_p6Wu68WI/AAAAAAAABT0/--EGmVK3tds/S220/wicca+copy.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31978041.post-115565395275034242</id><published>2006-08-15T10:51:00.000-04:00</published><updated>2006-08-19T14:15:26.033-04:00</updated><title type='text'>BORBOLETAS NO DESERTO</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Sábado, 10 de maio de 2003.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/1600/borboletas_no_deserto.2.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/400/borboletas_no_deserto.2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;As cores que se esborracham no vidro do Toyota são tantas e tão belas que às vezes me dói sair por aí a desbravar o asfalto africano. São borboletas, centenas delas, que encerram melancolicamente sua já tacanha existência, estateladas no pára-brisa do caminhão. Não imagino de onde venham. Mal paro o carro e saio correndo; vou verificar quantas e de que espécies encaminhei para a eternidade dessa vez. O paraíso das borboletas deve ser a coisa mais suave, mais diáfana, mais celestial do mundo. Duas amarelas, uma rajada de branco, vermelho e preto, uma azul, todas espatifadas na grade dianteira. Fora as que somente deixaram suas marcas no vidro, estilhaçadas em finos fragmentos pelos ares... Quanta dor causa uma ida ao supermercado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Para mim também. Assim como as borboletas, busco a sobrevivência nesse espaço hostil. E não pensem que são os leões (mesmo porque não os vi), os macacos, as ventanias, o calor inexorável, os arbustos espinhentos ou a mão inglesa os maiores perigos dessa aventura d'além-mar. Tampouco a malária, a mosca tsé-tsé ou a escassez de água. O maior desafio de todos e entre todos que encontrei por aqui foi... a comida. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;"Luta pela sobrevivência" é expressão corriqueira e presumida quando se fala em África. Bonito de se ouvir. Pressupõe algo nobre e elevado, nos faz lembrar o quanto somos pequenos nessas reclamações bestas do dia a dia, como a espinha nas costas ou o ônibus que atrasa todo dia ou a toalha molhada em cima da cama. Diante disso tudo, "da sobrevivência", coisa muita, grave e definitiva, não passamos de reles besourinho futucando a bosta do elefante. É por isso que me envergonho de reclamar da comida. Frescurite de gente que está lá a comer todo o dia, enche o pandu, arrota baixinho depois de se empanturrar e certamente não sabe o que é a necessidade legítima, "a luta pela sobrevivência". Diante de um Brasil que corre atrás da fome zero, reclamo de barriga cheíssima e francamente envergonhada que não agüento mais comer frango açucarado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Explico. É que tudo nesse lugar é meio doce. Mania de paladares ingleses e holandeses. A pimenta é meio doce. A carne é meio doce. O macarrão é meio doce. O biscoito salgado é meio doce. Já o feijão é... totalmente doce. Maionese, tem em tudo. Molhos, milhares. De sabores inimagináveis. Muitos não têm nem tradução. Tudo, claro, meio doce. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Não suporto mais viver nesse mundo enjoado, cheio de açúcar e dias melados, entre os quais as abelhas esvoaçam numa ameaça constante de picada. Vou empurrando com a barriga vazia enquanto saboreio à força o extrato da cana (às vezes da beterraba) e o suco das flores que não há na região. Aliás, me pergunto de onde pode vir esse perpétuo sabor de confeitaria. Por todo o lado o que se vê é a antítese: o chão árido, infértil, lugar salobro, de paisagens desprovidas de néctar e aparentemente nulas da possibilidade do mel. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Não sei que vertigens me andam trazendo agora lembranças de todo o sal que há na terra. Pressinto desertos brancos, alucinantes, forrados de cloreto de sódio. Vejo o oceano da Boa Esperança rodopiar apetitoso num caldeirão de sopa, cozinhando macarrão e legumes, mergulhados na abençoada salmoura. Olho para fora. As borboletas do meu jardim - só o meu jardim tem flores nessa cidade - procuram, desesperadas, algum canto onde possam sugar os sais pelos quais lutam para sobreviver nessas areias de açúcar. E seu fim se prenuncia docemente refletido nas janelas de cada carro que vai ao supermercado.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31978041-115565395275034242?l=outraaventuranaafrica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/feeds/115565395275034242/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31978041&amp;postID=115565395275034242&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115565395275034242'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115565395275034242'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/2006/08/borboletas-no-deserto.html' title='BORBOLETAS NO DESERTO'/><author><name>Marcya</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15383281749144172833</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_7aClEkyHiHU/S2_p6Wu68WI/AAAAAAAABT0/--EGmVK3tds/S220/wicca+copy.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31978041.post-115547451310469043</id><published>2006-08-13T08:59:00.000-04:00</published><updated>2006-08-13T09:08:33.116-04:00</updated><title type='text'>ARBUSTOS E DIAMANTES</title><content type='html'>Segunda-feira, Abril 6, 2003&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/1600/arbustos_e_diamantes.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/400/arbustos_e_diamantes.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Há 30 mil anos, o elo perdido perambulava por aí. E eu estava a caminho, na rabeira dos chamados "bushmen", os poucos sobreviventes da mais antiga civilização humana conhecida, esparramada pelas areias escaldantes do deserto de Kalahari e pelas bordas do antigo protetorado britânico de Bechuanalândia, hoje Botswana. Por longos momentos me coloquei dentro de uma estapafúrdia máquina do tempo, com cara de poltrona de avião, numa viagem flutuante à pré-história, e cada quilômetro percorrido recuava milênios na evolução das espécies. Certamente, efeitos das labaredas de claridade que pareciam vir de todos os lados, refletidas sem trégua no chão, nas nuvens, nos vidros dos outros carros que se aventuravam pelo caminho, numa espiral de raio laser para desintegrar direto na minha cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incontáveis touceiras de "bush", arbusto espinhoso que nomeia e abriga o milenar povo nômade, se espalhavam pelas colinas. Agora, eu também estava com eles, a atravessar os espinhos pontiagudos para os encontrar num passado remotíssimo, com o carinho e o afago de um lar. Foi um coqueiro muito reto que me despertou do transe. Uma estranha luz vermelha apontava insistente no meio das folhas da árvore. Era uma antena de telefonia celular disfarçada.&lt;br /&gt;A capital, Gaborone, me recebeu solene, como manda sua tradição inglesa: organizada, limpa, formal e discreta, aparentemente alijada dos tons fortes da África que eu já conhecia. Só o calor implacável não me deixava esquecer onde estava, nem por um minuto que fosse. Estava mais fresco por causa do inverno, me disseram. E não era piada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Dumela, ma?" "Dumela". Esse é um cumprimento cordial em setswana, a língua mais popular. Todos falam também o inglês, que é a oficial. Há muito menos crianças que em outros países africanos. Chega a ser mesmo difícil vê-las nas ruas. Negros albinos são muito comuns. Menos de um por cento da população é branca. Metade dos habitantes são cristãos. O resto obedece a seus ritos tribais. Aqui não se escapa da sanha dos shoppincenters e é impossível se locomover sem carro, o que provoca surpreendentes congestionamentos nos horários de pico. As distâncias são enormes. Entre prédios moderníssimos, casinhas pré-moldadas, muita areia, Mercedes último tipo e velhos jipes, não se vê miséria, nem pedintes nas ruas. Há tempos, o povo que um dia viveu sob os arbustos venera diamantes invisíveis, divindade nunca vista nem tocada, mas que vem soprando, incansável, os ventos da fartura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belas mansões e clubes de golfe denunciam que as pedras são palpáveis, existem de verdade. Desde a década de 60, quando foram descobertas as jazidas, o governo despacha toda a produção do país para exportação. Aqui não há centros de lapidação e quase não existem lojas que vendam jóias ornadas de brilhantes na cidade. Como uma Medusa que amamenta filhos que jamais poderão contemplá-la, os diamantes vão construindo uma rica capital no meio do deserto, que procura contornar seus justificáveis receios de um dia, transformar-se em pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Aids faz esse temor cada vez mais arraigado. A síndrome infesta pelo menos 38% da população do país. Culturalmente polígamos, os batswanas ainda vivem o dilema da colonização que os fez, ao mesmo tempo, protestantes e pudicos. A confusão de crenças e sentimentos tece uma rede da qual não conseguem se livrar sem muito esforço. Os funerais de parentes, amigos e conhecidos já são parte do dia-a-dia, a toda hora aparece um. Flores não há. Somente a secura do ar e das peles abraça os espinhos da via dolorosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São estes os arbustos que acolhem os diamantes de Botswana numa carícia cúmplice de literais milênios de convivência. Os bushmen, enciumados, se espalham pelas areias até sumir, quase de birra, cansados do peso da eterna alcunha de pais da civilização. Por onde andam agora? Estranhamente, o coqueiro-antena enverga com o vento forte. Os tempos andam mesmo outros... Um coco caiu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31978041-115547451310469043?l=outraaventuranaafrica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/feeds/115547451310469043/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31978041&amp;postID=115547451310469043&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115547451310469043'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115547451310469043'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/2006/08/arbustos-e-diamantes.html' title='ARBUSTOS E DIAMANTES'/><author><name>Marcya</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15383281749144172833</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_7aClEkyHiHU/S2_p6Wu68WI/AAAAAAAABT0/--EGmVK3tds/S220/wicca+copy.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31978041.post-115486694268750751</id><published>2006-08-06T08:12:00.000-04:00</published><updated>2006-08-08T23:00:24.796-04:00</updated><title type='text'>NO CAMINHO DE INHAMBANE</title><content type='html'>Domingo, 15 de Abril de 2003&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/1600/no_caminho_de_inhambane.3.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/400/no_caminho_de_inhambane.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/1600/no_caminho_de_inhambane.2.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5397/3461/1600/no_caminho_de_inhambane.2.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Minino*. Cachorro, banana, laranja. Pilhas de pneus. Crateras no asfalto. Ônibus carregados. Gente. Muita gente. Panos coloridos. Vermelho, amarelo, laranja, verde, puros. Arco e flecha. Perus. Potes de barro, esteiras, feno. Minino, minino e minino. Nas costas, no chão, em cima da árvore, pulando, correndo, voando. Peixe. Mariscos. Pontas de mar. Coqueiros. Coco. Macaquinhos. Macaquinhos talhados no coco. Lenha. Cana. Cestas. Palha. Colar de conchas. As conchas sozinhas se você quiser. Casinhas. Trincheiras. Buraco de bala. E mais minino. Nunca vi tanto minino na vida, Meu Deus! Cabrinhas, cabritos e bodes. Carroças puxadas por gente. Jumento, só um.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Era esse o caminho para Inhambane, cidade praieira e histórica de Moçambique, uma das primeiras fundadas na África Austral, lá pelos idos de 1500. Saindo de Maputo, foram quase oito horas para percorrer sofríveis 400 quilômetros de uma estrada de mão dupla, estreitíssima e esburacada, à beira da qual se via e se vendia de tudo. Não era só o estresse de dirigir um carro velho, Toyota Hilux 4x4, cabine dupla, ano 92, quase um caminhão, e ainda por cima do lado errado da pista. Não era só a impressão permanente que isso me dava de estar sempre fazendo algo errado. Era mais que tudo o excesso de novidade, o impacto das cores fortes, a miséria que o pós-guerra não vai abandonar nunca, o pânico perene de atropelar um daqueles milhares de meninos que caminhavam pela estrada rindo, dançando, carregando outros e outros e outros, vindos de não sei onde, indo para lugar nenhum. Pela primeira vez, desde que cheguei ao continente, me senti verdadeiramente na África.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrada que levava ao mar de Moçambique tinha outros mistérios. Não era caminho costeiro. Deixava na cabeça, já abarrotada de informação, uma outra dúvida: a expectativa da beleza ou do desespero que poderia vir, pois não era possível dali vislumbrar as areias das praias negras que davam para esse Índico que fala português (ou algo muito parecido). Umas duas ou três vezes, é verdade, foi possível ver uma pontinha de baía, uns lagos salobros, uns coqueiros envergados. E só. O resto era interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os vilarejos, na sua maioria, eram um misto de sorrisos e desolação. Aqui e ali viam-se pequenos prédios em ruínas; aqueles cujos telhados já haviam caído abrigavam mato alto, lixo e cabras com suas proles. Lojinhas de mantimentos e bares sujos invariavelmente ostentavam em suas paredes escandalosos anúncios pintados de Coca-Cola. Sempre Coca-Cola. Quase toda a gente do lugar ficava simplesmente parada à beira da pista, à espera de sei lá o quê. Sentados na terra, embaixo daquele sol implacável, pareciam sossegados, a levar a vida de todo o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da vontade grande, era impossível pisar no freio para ver aquele burburinho de perto. Cada veículo que parava - em especial os ônibus - era cercado por dezenas de vendedores que se engalfinhavam nas janelas com bacias coloridas nas mãos, dentro das quais havia tudo o que pudesse ser vendável - mesmo num momento de loucura - e o que não pudesse também. Ah, então era por isso que esperavam. À primeira vista, nenhum dos viajantes era turista e sendo assim, certamente enxergavam algum sentido naquela balbúrdia e talvez até mesmo comprassem alguma coisa. Para nós, parar seria atrasar a viagem em mais algumas preciosas horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando uma menina de vestido estampado perseguiu nosso carro numa corrida desabalada, que de repente percebi que quando passávamos, as pessoas nos olhavam com especial atenção e curiosidade. Atinei, mas já sabia desde muito que o bicho raro era eu, provavelmente a única mulher branca em quilômetros e quilômetros de distância, e bem diferente das outras que eles já haviam visto por ali. Isso nem me incomodava mais, ao contrário, estava a achar bom ser criatura exótica naquele mundo estranho. Talvez pela quentura do sol, começava a delirar, pensando em viver assim, sempre passando, passando, passando, vigiada por olhares espantados pela estrada que não tem fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando finalmente chegamos à simpática cidadezinha que tanto custo deu para encontrar, já me dava por satisfeita da viagem, cheia, saturada, sem mais nada a acrescentar. Mal tive ânimo para olhar os predinhos antigos, as mesquitinhas, o portinho, a prainha, a baiazinha - que tudo lá é muito pequeno, com exceção da lagosta que comi no jantar. Queria fazer o percurso de volta para ver tudo de novo, todos os meninos da estrada no seu trajeto atávico. Chegando a Maputo, não pensava em outra coisa além de nunca mais voltar. Mas ainda hoje, quando olho para as paredes vazias do quarto na noite sem sono, vejo passar como um filme cada detalhe do caminho de Inhambane.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;* Minino, claro, é menino no dizer popular. Licença poética, porque, no caso, era o que a sonoridade do texto obrigava. (Nota da autora)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31978041-115486694268750751?l=outraaventuranaafrica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/feeds/115486694268750751/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31978041&amp;postID=115486694268750751&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115486694268750751'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115486694268750751'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/2006/08/no-caminho-de-inhambane.html' title='NO CAMINHO DE INHAMBANE'/><author><name>Marcya</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15383281749144172833</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_7aClEkyHiHU/S2_p6Wu68WI/AAAAAAAABT0/--EGmVK3tds/S220/wicca+copy.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31978041.post-115439325470358592</id><published>2006-07-31T20:45:00.000-04:00</published><updated>2006-08-08T23:04:19.440-04:00</updated><title type='text'>A CHEGADA</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;Quarta-feira, 04 de Abril de 2003.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a name="323337"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;O vôo da South African surpreendeu-me pela rapidez. Das onze horas supostas, alardeadas por conhecidos viajados desse mundo afora, encurtou para oito, das quais a maior parte passei às claras, literalmente nas nuvens, procurando o tempo todo fingir estar dormindo. É que o passageiro ao meu lado, um tipinho empertigado, inconvenientemente bem-humorado, falava sem parar. Brasileiro! Que falta de sorte... No meu amado português natal, que me esforçava para não entender, contava histórias estranhas recheadas de perguntas sobre meus projetos africanos. É com muito pouca vergonha que confesso me arrepender de não ter grunhido que era sueca, dinamarquesa ou algo assim. Não estava definitivamente com ganas de viabilizar a comunicação entre nós, estrangeiros da mesma pátria, e sim de esganá-lo sem dó, ao mínimo e insuspeito descuido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num peremptório ato de desespero, lancei-me pela primeira vez em minha vida a um comprimido de Dramin, providencialmente colocado dentro da bolsa para alguma emergência - e era o caso. Desculpei-me com um sorriso sem-graça "que viagem enjoada, não?" engoli o remédio com uma talagada de Coca-Cola "sempre tomo isso em caso de necessidade" e finalmente entreguei-me aos braços de um Morfeu insone, que vira e mexe se sacudia agitado na cadeira irreclinável. Foi o comissário de bordo, numa simpatia solidária perdida no meio de seus dreadlocks, que me avisou da aterrissagem em &lt;strong&gt;&lt;a href="http://www.joburg.org.za/"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Johannesburg&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;. Por Deus! Tinha atravessado o &lt;/span&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cabo_da_Boa_EsperanÃ§a"&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Cabo da Boa Esperança&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;e sequer havia me dado conta... &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;À primeira vista, a África se mostrou como o esperado: selvagem e cheia de calor. Turistas ensandecidos, viajantes exaustos, de passagem para outras paragens, nativos e diplomatas, os animaizinhos todos se aglomeravam nas filas quilométricas da alfândega, suados e impacientes. Isso é que era a lei da selva. Depois de longos cinqüenta minutos de espera, carimbos e perguntas, pude respirar os ares poluídos da portentosa cidade da África do Sul. Me esperavam Ivan e Chris, um sul-africano amigo, animal estranho, de cara vermelha do sol que não renega suas labaredas e com um inglês impossível de compreender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos caçar no shoppingcenter? Palavra, nunca entrei em tantas garagens. Precisava apenas de uns sapatos para andar na terra (que terra?), pois achava que talvez em Botswana pudesse encontrar alguma. Fomos em cinco centros de compras faraônicos. Todos tão grandes que em um deles nos perdemos por uma hora e pensei que passaríamos o resto da vida ali, como o indiano que, soube-se numa notícia de jornal, tinha passado quase dez anos morando no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, perdido que estava no mostruoso complexo, à procura da conexão que o levaria de volta à casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nossa casa estava longe demais. Estávamos a milhares de quilômetros do aconchego e não cabia voltar agora. Havia muito o que explorar. Passeamos de carro pela cidade durante todo o dia. Entre hotéis de luxo, espigões, carros caros, mansões megalomaníacas e lojas de departamentos, os únicos bichos que encontramos estavam desenhados na placa de entrada do zoológico. Em compensação, conheci todas as redes de fast food do mundo. Não sabia que existiam tantas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte resolvemos fazer um tour histórico. Ver bem vistas as raízes do &lt;strong&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Apartheid"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;apartheid&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;, da violência que os brancos espantaram de seus subúrbios elegantes para desaguar na miséria distante dos pobres bairros negros como Alexandra, onde a morte não passa de mais um transeunte triste no desfile de mazelas herdado pela colonização dos povos africanos que habitavam a região. Hoje, dizem que eles não podem mais viver sem a tutela dos desbotados, apesar de Mandela e do festejado encontro com a igualdade. Suas línguas os confundem, seus caminhos se contorcem até um nó cego, suas vontades não se cruzam, suas culturas são díspares, seus semelhantes antagônicos. No final, temendo o caos, o governo negro acaba se submetendo à força dos interesses, à capacidade de organização dos brancos, ao inglês - língua "universal" que não deixa dúvidas, não provoca mal-entendidos, ao império constituído que não deixa o país resvalar para a imagem da África que todos nós, estrangeiros, temos cravada na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, imbuídos desse entendimento inicial, simplista, mas adequado a quem está de fora, saímos à cata do bairro que é o símbolo da luta contra a segregação racial: o Soweto. O lugar é muito diferente de tudo o que eu imaginara. Um sem conta de casinhas enfeitadas como as dos desenhos infantis. Pequeninhas e muito bem cuidadas, coloridas e separadas por cerquinhas de madeira, de arbustos, de flores. O Museu do Apartheid chama-se &lt;strong&gt;&lt;a href="http://oglobo.globo.com/online/mundo/plantao/2006/06/13/284240105.asp"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Hector Pieterson&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;, em homenagem à primeira vítima do regime sangrento. Uma bela construção de tijolinhos, herdada dos odiados holandeses que invadiram o país no século passado e tomaram conta de tudo. Por dentro, muitas fotos chocantes, bons vídeos sobre a história do povo e da escalada da discriminação. É um passeio doloroso, mesmo para quem não viu de perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, fomos conhecer a casa onde morava &lt;strong&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Nelson_Mandela"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Nelson Mandela&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;. Pequena como todas, mas completamente entupida dos mais diversos tipos de bagulho. As paredes de todos os cômodos estavam forradas de diplomas, medalhas, troféus, fotos e cartazes. Presentes e objetos pessoais do líder se espalhavam sobre mesas, cadeiras, cama, armários e até na pia da cozinha. A poluição visual era tanta que me causava uma certa náusea claustrofóbica e várias vezes procurei a janela para respirar. O único lugar aparentemente aberto e desimpedido era o banheiro, e logo entendi porquê. Enquanto o guia - uma figura - mostrava os sapatos de Mandela, estranhamente pequenos para um gigante de 1,95m (os de &lt;strong&gt;&lt;a href="http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG65214-6013-320,00.html"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Winnie&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt; eram bem maiores), um homem entrou no toilette e fechou a porta. Minutos depois, veio a descarga. Pois é. Histórico mas sem perder a utilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exausta e cheia de perguntas, me entreguei à selva. Voltamos para o hotel. No dia seguinte, partiríamos para Botswana.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31978041-115439325470358592?l=outraaventuranaafrica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/feeds/115439325470358592/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31978041&amp;postID=115439325470358592&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115439325470358592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31978041/posts/default/115439325470358592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://outraaventuranaafrica.blogspot.com/2006/07/chegada.html' title='A CHEGADA'/><author><name>Marcya</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15383281749144172833</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_7aClEkyHiHU/S2_p6Wu68WI/AAAAAAAABT0/--EGmVK3tds/S220/wicca+copy.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
