
Nunca houve céu mais estrelado. Nem nas telas ofegantes de Vincent, que eu pensava reunirem em si sozinhas todo o turbilhão de sonho, fúria, erro e vida que o azul noturno podia esconder, dependente que é do olhar de quem o contempla. Pois aquela noite africana fazia inveja às pinceladas geniais. Deixei-me levar pelo redemoinho esbranquiçado da Via Láctea devaneando tal e qual o holandês em suas maravilhosas noites de insônia e delírio. Me pergunto como a mão perturbada teria entoado o que só eu vi.
"Ora (direis) ouvir estrelas!" E há muito mesmo o que escutar. Não existe nada mais instigante que esse silêncio fingido, que me traz o eco trêmulo do big-bang vindo das profundezas de bilhões de anos atrás. Pois a confusão se repetiu naquele dia. Pensei que de novo ia explodir. Todas as estrelas do universo estavam lá; não faltou uma sequer. Dizem que numa noite muito escura, pode-se ver entre mil e mil e quinhentas. O que saber então dessa escuridão de um milhão de estrelas? Cada virada de cabeça flagrava uma cadente. Talvez disfarçados, satélites-espiões, discos voadores e anjos recém-nascidos se misturassem aos corpos celestes para, anônimos e felizes, tomar parte do lusco-fusco.
Desci do carro em pleno nada do deserto, cercada de arbustos e estrada vazia, só para botar os olhos pra cima. Brilhavam tanto as estrelas e berravam mudas por atenção que não houve escolha. Perigo sempre existe. Cobras, hienas, escorpiões enormes. Mas vale bem o risco. Escorpiões também há lá em cima. Abençoada por Ptolomeus, Hevelius e Lacaille*, passei a ligar os pontos para encontrar as figuras de animais e personagens mitológicos.
Escorpius, vista inteirinha, ameaçava com o rabo de chicote. Na cabeça do mostro, Antares, a gigante vermelha, luzia os olhos revirados em transe. Em oposição à rival, o planeta Marte se aproximava, generoso, para saudar com um periélio que só o Homem de Neanderthal pôde ver igual. Confuso, de pernas para o ar, o caçador Órion procurava seu Cão Maior perdido. Sirius apontava a direção. O Cão Menor o encontraria pelo faro. Dadas a peraltices, as Três Marias levadas apertavam com força o cinturão. Mas havia ainda mais e mais.
Centenas, milhares. Todas elas constelações, perfeitas e inalcançáveis, com seus lindos nomes em latim: Andromeda, Antlia, Apus, Aquarius, Aquila, Ara, Aries, Auriga, Boötes, Caelum, Camelopardalis, Cancer, Canes Venatici, Canis Major, Canis Minor, Capricornus, Carina, Cassiopeia, Centaurus, Cepheus, Cetus, Chamaeleon, Circinus, Columba, Coma Berenices, Corona Austrina, Corona Borealis, Corvus, Crater, Crux, Cygnus, Delphinus, Dorado, Draco, Equuleus, Eridanus, Fornax, Gemini, Grus, Hercules, Horologium, Hydra, Hydrus, Indus, Lacerta, Leo, Leo Minor, Lepus, Libra, Lupus, Lynx, Lyra, Mensa, Microscopium, Monoceros, Musca, Normai, Octans, Ophiuchus, Orion, Pavo, Pegasus, Perseus, Phoenix, Pictor, Pisces, Piscis Austrinus, Puppis, Pyxis, Reticulum, Sagitta, Sagittarius, Scorpius, Sculptor, Scutum, Serpens, Sextans, Taurus, Telescopium, Triangulum, Triangulum Australe, Tucana, Ursa Major, Ursa Minor, Vela, Virgo, Volans, Vulpecula.
Tímido, quase uma sombra embaçada cravada no meio do espetacular céu de planetário, Crux, o Cruzeiro do Sul, me chamava de volta pra casa. Olhei para os lados. Era meu e meu só. Ninguém ali seria capaz de entender a mensagem cifrada que ele me indicava. Era um mistério nebuloso, um chamado íntimo e telepático, uma linguagem secreta de amigos muito queridos. Cintilavam as cinco em coro, teimando a sua vontade. Que fazer contra a vontade de uma estrela? A sigma do Oitante**, fraquinha, quase sumida lá no longe, apesar de sua magnitude de rainha, se juntava a elas no apelo. Era a bússola que me fazia lembrar, num sussurro saudoso, o caminho que deveria seguir pela estrada.
Durou tudo um só minuto. Tive que ir embora enfim. Mas minha imaginação, há anos-luz dali, decide seguir o conselho das estrelas. Gira o mapa do mundo e as rodas da vida para encontrar seu rumo. Elas se despedem, satisfeitas, e pedem aos gênios por mim. A Bilac que me ajude a sempre ouvi-las e a Vincent que não me deixe esquecer de amá-las.
* Ptolomeus, Hevelius e Lacaille, astrônomos de tempos longínquos, foram os primeiros (do mundo ocidental) a mapear e batizar as constelações.
** A sigma do Oitante é a estrela que representa o Distrito Federal na bandeira brasileira.





